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domingo, 31 de março de 2013

Cristo ressuscitou, Aleluia!, Aleluia!


No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo logo de manhã, ainda escuro, e viu retirada a pedra que o tapava. Correndo, foi ter com Simão Pedro e com o outro discípulo, o que Jesus amava, e disse-lhes: «O Senhor foi levado do túmulo e não sabemos onde o puseram.» 
Pedro saiu com o outro discípulo e foram ao túmulo. Corriam os dois juntos, mas o outro discípulo correu mais do que Pedro e chegou primeiro ao túmulo. Inclinou-se para observar e reparou que os panos de linho estavam espalmados no chão, mas não entrou. Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira. Entrou no túmulo e ficou admirado ao ver os panos de linho espalmados no chão, ao passo que o lenço que tivera em volta da cabeça não estava espalmado no chão juntamente com os panos de linho, mas de outro modo, enrolado noutra posição. Então, entrou também o outro discípulo, o que tinha chegado primeiro ao túmulo. Viu e começou a crer, pois ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos. 
 
(Evangelho segundo S. João 20,1-9)

sábado, 30 de março de 2013

Sábado de Aleluia


Sábado de Aleluia. Para quem acredita, Cristo, verdadeiro homem, experimentou profundamente o aniquilamento da morte. Agora, é um tempo de espera, de vigília. Amanhã, será dia de Páscoa, a vitória da vida sobre a morte.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Pietá de Miguel Torga

No Natal de 1939, o escritor e poeta Miguel Torga estava na cadeia do Aljube, cadeia para presos políticos, em Lisboa. Quem leu os Diários de Miguel Torga - que ele escreveu, quase ininterruptamente, durante 60 anos  - sabe que ele sempre, no Dia de Natal, tinha uma palavra para celebrar o nascimento do Menino, muitas vezes com um poema. Bem, naquele Natal de 1939, o poeta sentiu o seu corpo tão amortalhado, morto e nu, que o seu pensamento se elevou até ao Cristo crucificado. E escreveu um pungente poema, a que deu o título de “Pietá”.
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quinta-feira, 28 de março de 2013

Parque dos Poetas, em Oeiras (1)

Parque dos Poetas, em Oeiras, dia 21 de Março de 2013, Dia Mundial da Poesia.
O meu amigo Manuel Caleiro, junto à estátua do poeta Ruy Belo, diz o poema "E tudo era possível"

Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer

Ruy Belo

quarta-feira, 27 de março de 2013

Parque dos Poetas, em Oeiras

O dia 21, Dia Mundial da Poesia, foi passado com os meus amigos do Grupo de Leitura no Parque dos Poetas, em Oeiras. Duas horas de manhã e duas horas da parte da tarde. A parte da manhã, na companhia dos poetas portugueses do Séc. XX e a parte da tarde, com os poetas dos Séc. XIII a XVII. 

Foi uma barriga cheia de poesia! Só o tempo não ajudou. Chegou até a chover quando estava a terminar a sessão da manhã. Lemos, em média, 2 poemas por poeta, com excepção do Camões, do qual foram ditos 13 sonetos. Como os poetas, que já constam do Parque, são 33 (20 da 1ª fase, mais 13 da 2ª fase), foram ditos cerca 75 poemas. É obra! 

Vou deixar aqui, durante os próximos dias, algumas fotografias alusivas ao acontecimento.
Ainda, na Amadora, à espera dos que se atrasaram.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Maratona de Poesia

Ontem, dei um saltinho ao Centro Cultural de Belém, em Lisboa, para espreitar a Maratona de Leitura de poemas de Ruy Belo, ditos por diferentes personalidades. 

Acabei por assistir a quase todo o evento. Ouvi poemas de Pedro Lamares (Coordenador da sessão), Elisabete Caramelo, Fernando Pinto do Amaral, Guilherme, d’Oliveira Martins, Helena Buescu, Isabel Rocheta, João Barrento, Jorge Vaz de Carvalho, Leonor Xavier,Luís Bragança Gil, Maria Alzira Seixo, Paula Moura Pinheiro, Teresa Belo, António Carlos Cortez. Em relação ao que constava do programa, apenas não ouvi os poemas ditos por Eunice Munõz e Vasco da Graça Moura. 

Na foto, vemos Teresa Belo, a companheira do poeta, a dizer o poema “Ácidos e Óxidos”. 

Esta maratona é, salvo erro, a quarta que se realizou nos últimos anos. A primeira foi dedicada a Luís de Camões e as outras a Álvaro de Campos e a Jorge de Sena. Por aqui se vê que a fasquia é alta e Ruy Belo está lá em cima.

domingo, 24 de março de 2013

Ruy Belo quem é?

O poeta Ruy Belo, se fosse vivo, teria feito 80 anos no passado dia 27 de Fevereiro. Hoje, o Centro Cultural de Belém dedica-lhe várias iniciativas. Assim, entre outros eventos, destaque para a Maratona da Leitura, este ano, dedicada a Ruy Belo.

Nessa maratona, irão ser ditos poemas de Ruy Belo, por diferentes personalidades: Vasco Graça Moura, Eunice Munõz, Elisabete Caramelo, Fernando Pinto do Amaral, Guilherme, d’Oliveira Martins, Helena Buescu, Isabel Rocheta, João Barrento, Jorge Vaz de Carvalho, Leonor Xavier,Luís Bragança Gil, Maria Alzira Seixo, Paula Moura Pinheiro, Teresa Belo e António Carlos Cortez. A apresentação deste evento é da responsabilidade de Pedro Lamares.

No passado dia 16, estive presente numa sessão de poesia sobre o poeta Ruy Belo, que teve lugar na Biblioteca Fernando Piteira Santos, na Amadora. A sessão teve a participação de Maria Emília Gonçalves, Maria Paula Marques, Dinis Evangelista, Manuel Diogo e António Freire, sob a coordenação de Maria de Lurdes Esteves.

Fica Aqui  um pequeno filme sobre o evento no qual fui um espectador atento.

A coordenadora Maria de Lurdes Esteves, mentora do evento, é uma entusiasta do poeta. Afirma ela: «O poeta Ruy Belo vai ser, no século XXI, tal como aconteceu com Fernando Pessoa, redescoberto».

Não sei se vai ser exactamente assim, mas o que é verdade é que estamos assistir a um interesse cada vez maior pela vida e a obra do poeta Ruy Belo, como comprovam os vários eventos de que vamos tendo notícia.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Palavras Cruzadas com História

Vão terminar no dia 27 de Maio as comemorações, já a decorrer, dos 50 anos da morte de um escritor português, sob o patrocínio da Associação Portuguesa de Escritores. 

Até lá, destacam-se ainda mais três iniciativas de vulto. 

A primeira, a 19 de Março, Alfredo Caldeira, Fernando Rosas, Mário Cláudio e José Manuel Mendes lembram, na biblioteca do Parlamento, o tempo da clandestinidade e exílio do escritor. 

A segunda, a 20 de Abril, será a vez de uma visita guiada por Henrique Monteiro à aldeia, onde nasceu. 

A terceira, no dia seguinte, será Mário Cláudio a guiar o itinerário por uma aldeia, no Minho, tema de um dos seus romances. 

De quem estamos a falar? A resolução deste problema de Palavras Cruzadas dar-lhe-á o nome desse escritor português, assim como o nome de um dos seus principais romances.


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HORIZONTAIS: 1 – Pancada com o taco; Diabo. 2 – Desmoronar-se; Dividir ou limitar com taipa. 3 – Pequena argola; Guarda em arquivo. 4 – Ruim; Estimou; Aguardente obtida da destilação do melaço depois de fermentado. 5 – Sois pachorrentos; Contracção da preposição “a” + o artigo definido “o”. 6 –Elemento de formação de palavras que exprime a ideia de ócio, lazer; Luminosidade. 7 Estibordo (símbolo náutico); Ambiciones. 8 – Regime de Arrendamento Urbano (sigla); Vida de vadio; Prefixo que exprime a ideia de privação, separação.  9 – Regato; Unidade de medida de superfície. 10 – Linha que inicia um parágrafo; Cada uma das partes articuladas com que terminam as mãos e os pés. 11 – Adição; Palavra de ordem.

VERTICAIS: 1 – Conjunto dos utensílios de cozinha; Localidades. 2 – Classes; Danço. 3 – Manifestação do apetite sexual, nos animais, nas épocas próprias da reprodução; Elemento de formação de palavras que exprime a ideia de ovo, óvulo; Designação extensiva a um grupo de palmeiras do Brasil, entre as quais as também conhecidas por ubimirim, ubim-uaçu. 4 - Atmosfera; Baú; Interjeição que exprime alegria, surpresa ou admiração. 5 – Conceda a amnistia. 6 – Aturde; Límpidas. 7 - Pertencente ou semelhante a águia. 8 – Dispositivo Intrauterino (sigla); Cada um dos 114 capítulos do Alcorão; Contracção da preposição “de+ o artigo definido “o. 9 – Elemento de formação de palavras que exprime a ideia de continente, terra firme; (…) Fernandes, personagem do livro “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós; Associação Europeia de Golfe (sigla). 10 – Pouca sorte (Angola); Sardenta. 11 – Rezamos; Elemento transuraniano com o número atómico 10 e símbolo Ne.

Clique Aqui  para imprimir.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Habemus Papam



Agora sim, houve fumo branco no Vaticano. Habemus Papam.

Jorge Bergoglio, 76 anos, Argentina, Arcebispo de Buenos Aires.


Consta que no último conclave foi o mais votado depois de Ratzinger (Bento XVI).

Vai chamar-se Francisco. Francisco de Assis foi um homem que entrou em ruptura com a Igreja. Foi nessa altura uma brisa de amor contra o egoismo.

E este Francisco como vai ser? 

domingo, 10 de março de 2013

Habemus Papam

Não, ainda não há fumo branco. Só acontece que, ontem, deitei-me perto das 3h da manhã, porque estive a ver na RTP 1 o filme “Habemus Papam”, do realizador italiano Nanni Moretti. Não o vi quando passou há tempos pelas salas de cinema, mas trazia-o debaixo de olho. Até parece que o filme é premonitório numa altura em que já se encontram no Vaticano os 115 cardeais eleitores que escolherão o sucessor de Bento XVI, porque este, para espanto do mundo, justamente resignou. 
Trata-se de uma comédia dramática, que incide precisamente num conclave ficcionado. Depois da morte do Papa, os cardeais de todo o mundo reúnem-se em clausura, na Capela Sistina, e elegem o futuro sumo pontífice (Michel Piccoli). Enquanto isso, na Praça de S. Pedro, milhares de pessoas aguardam ansiosamente pelo pastor. Porém, esmagado pelo peso da responsabilidade, o herdeiro da cadeira de S Pedro entra em pânico, recusando-se a aparecer em público. Depois de tudo tentarem os seus conselheiros decidem chamar um dos mais reconhecidos psicanalistas do país (Nanni Moretti) para o ajudar a ultrapassar a crise. Mas nada parece surtir efeito. E, depois de três dias com o mundo suspenso, vagueando solitariamente pelas ruas de Roma, ele tem de encontrar a coragem necessária para tomar uma decisão. Finalmente, ele aparece à varanda da Praça de São Pedro, não para saudar os fiéis, como todos tão ansiosamente esperavam, mas para dizer que não aceita, por não sentir capaz de desempenhar o cargo para que foi escolhido!

Como eu te compreendo. Eu sei que não é politicamente correcto compreender a posição daquele que diz não ser capaz, de ficar em pânico com a perspectiva de exercer o poder, de ficar esmagado pelo peso da responsabilidade do cargo para que foi escolhido. Neste mundo ferozmente competitivo, admirados são aqueles que sobem na vida, aqueles que aceitam, à primeira, o alto cargo que lhes cai no regaço. 

Eu não penso assim. Passando da ficção à realidade, como eu te compreendo bem, bom Papa Bento XVI!

sexta-feira, 8 de março de 2013

Mulher



MULHER

Chamam-te linda, chamam-te formosa,
Chamam-te bela, chamam-te gentil...
A rosa é linda, é bela, é graciosa,
Porém a tua graça é mais subtil.

A onda que na praia, sinuosa,
A areia enfeita com encantos mil,
Não tem a graça, a curva luminosa
Das linhas do teu corpo, amor e ardil.

Chamam-te linda, encantadora ou bela;
Da tua graça é pálida aguarela
Todo o nome que o mundo à graça der.

Pergunto a Deus o nome que hei-de dar-te,
E Deus responde em mim, por toda parte:
Não chames bela – Chama-lhe Mulher!

Rui de Noronha (Moçambique, 1909-1943)

terça-feira, 5 de março de 2013

Uma memória da não memória


De Profundis, Valsa Lenta (1997) foi um dos últimos livros escritos por José Cardoso Pires. Estamos perante um livro de difícil classificação: não é romance, não é conto, não é novela, não é ensaio, não é relato. É documento? É testemunho? É o próprio escritor que nos diz que oscila entre relato ou memória. Escrita rigorosamente objectiva. Escrita branca, substantiva, despojada. Despojada de barrocos, de advérbios. Uma memória da não memória. 

JCP dá o testemunho dum facto verdadeiro em que ele foi o protagonista principal. É vítima de um AVC, em Janeiro de 1995. «Como é que tu te chamas?», pergunta ele à mulher, quando estava sentado à mesa a tomar o pequeno-almoço. «Eu, Edite, e tu?» Pausa. «E tu?» pergunta de novo a mulher. Longa pausa. «Parece que é Cardoso Pires», respondeu finalmente o escritor. Dali à urgência do Hospital de Santa Maria foi instante. Começou assim uma viagem à desmemória, a um homem sem memória. E um homem sem memória é um homem perdido, um homem sem afectos. É um homem que perde as emoções, que perde a fala, que a fala fica destroçada. Quando não se tem memória, não se têm relações. E quando se perde a leitura e a escrita fica-se impossibilitado de comunicar. 

O que o escritor conta no livro foi em grande parte o que lhe contaram, não foi imaginado. Explica ele, mais tarde, numa entrevista. Lembra-se de muitas poucas coisas. A recordação que tem é de uma brancura iluminada, as pessoas eram vultos muito brancos. Olha, mas não reconhece ninguém. Não obstante, é uma vida tranquila, que sorri sempre. Foram 4 meses de trevas, mas JCP foi um homem com sorte. O seu caso não foi dos mais graves e ele recuperou. A rede dos neurónios voltaram a funcionar. 

De Profundis, Valsa Lenta é uma viagem à desmemória, ao homem sem memória. Uma memória da não memória.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Resta-me agora o remorso...


O escritor Vergílio Ferreira partiu no dia 1 de Março de 1996. Há 17 anos, portanto. Para a sua última morada, o escritor quis que fosse em Melo, sua terra natal, para ficar virado para a Serra da Estrela como foi sempre seu desejo. 

Após a sua morte, passados 15 dias, foi publicado no jornal “Público” este artigo, da autoria de um escritor, ainda vivo, que nos fala da morte de Vergílio Ferreira. Alguém sabe dizer quem escreveu este texto? 

É-me muito penoso falar da situação de gelado desconforto, de quase dolorosa incomodidade, ao saber que Vergílio Ferreira abalou. Outro escritor falta, e dos grandes. Sei que estas alturas são azadas à grande frase, ou terna ou ataviada, a querer exprimir aquilo que se sabe não ser exprimível por frases, Não sou capaz. Sofro de inaptidão congénita para o sublime. 

Eu não era amigo de Vergílio Ferreira. Poucos acasos fizeram com que nos encontrássemos, sempre a furto, por aqui e por além, naquelas circunstâncias e cerimónias que determinam que, esporadicamente os escritores se encontrem. Desses contactos, nada me ficou. A ele, seguramente, menos que nada. Sabia que, da parte de Vergílio Ferreira havia uma forte animadversão (é maneira de dizer...) para com realidades, pessoas, artistas e instituições que, pela vida fora me habituei a respeitar e a amar, muito ao meu jeito. Leituras folheadas (ou contadas) de páginas da “Conta-Corrente” deixavam-me (deixam-me) entristecido, e, às vezes, revoltado. Em certos momentos, sabia que ele estava “do lado de lá”. Um grande escritor estava “do lado de lá”, o que obrigava sempre a reponderar “o lado de cá”. 

Quando a “Aparição” ganhou o Prémio Camilo Castelo Branco eu ainda frequentava o Liceu Camões. Recordo-me de como me orgulhei por ter o prémio sido atribuído a alguém que também andava pelos mesmos espaços, percorria os mesmos corredores e, por vezes, se cruzava connosco, grave, cabisbaixo e sombrio. Era o Professor de Português da outra turma. Os meus dezasseis anos cometeram ler a “Aparição” e ficaram fascinados pelo livro, se calhar por ingénuas e deslocadas (erradas?) razões. Eu podia dizer em casa que conhecia o Vergílio Ferreira, que respirava o mesmo ar, que, estando atento, lhe podia até ouvir a voz. E, perante pessoas que bem conheciam Évora, eu podia falar de uma outra Évora. Conservo o exemplar, dedicado a meu pai, em 12 de Agosto de 1959. “Cordialmente”. 

Os tempos que a seguir vieram foram-me muito convulsos e agitados. Creio que só há poucos anos deixaram de o ser. No início de sessenta, um jovem autor publica, aos vinte anos, um genial livro de estreia : Almeida Faria, “Rumor Branco”. Nada tinha que ver com os cânones do neo-realismo, então muito em voga no meio universitário, enunciados com uma simplificação própria de moços. Vergílio Ferreira, com generosidade, defendeu abertamente o livro, arrostando com marés adversas. Numa agitada série debates, sob o lema “As grandes correntes da Literatura Contemporânea”, organizados pela Associação de Estudantes do I.S.T, o confronto estala, a propósito do “papel” do escritor na intervenção social. 

Admite-se que um escritor “peça dispensa”?, foi um dos problemas que se levantou. Vergílio Ferreira era o visado. 

Eu e outros amigos meus estávamos divididos. Por um lado, entendíamos que a arte devia ser “empenhada”; por outro, admirávamos a obra de Vergílio Ferreira... Por um lado, preconizávamos a literatura “de conteúdo”; por outro, sabíamos de cor páginas inteiras do “Rumor Branco”... Por um lado, éramos militantes endurecidos e exigentes; por outro, gostávamos muito de literatura... Uma esquizofrenia muito difícil de gerir... Aliás, incurável. 

Quando, finalmente, muito depois, as bizarras revoluções do destino me fizeram escritor, fui enviando alguns dos meus livros a Vergílio Ferreira. Nunca esperei que os lesse. Era uma espécie de prestação de menagem e já me satisfaria que lhe ocupassem um lugar nas estantes, ao calor dos outros livros que ele consultava. Os tempos não estão para convivências, nem para amabilidades, nem para boas vontades. As pessoas afastam-se e, para não se rosnarem, ignoram-se. Se alguém estabelece um contacto, pensa logo no preço que terá de pagar por ele. Quem se mexe, arrisca-se, expõe-se. Aprendi isso amargamente, os gestos sub ou metainterpretados, a inadequação da inocência. Habituei-me a não esperar respostas. A desconfiar, sempre. A “desligar”. 

Surpreendentemente, de todas as vezes que enviei um livro a Vergílio Ferreira, recebi uma resposta, e amiga e circunstanciada. A mim, que mal o conhecia, e que não estava a contar com resposta nenhuma. Gente de outros tempos, pensei. Educação. Boa coisa. 

Da última vez não chegou um cartão. Veio uma carta. Opiniões amáveis, advertências, conselhos, rectificações de casos que eu narrei - porventura mal - em entrevistas já esquecidas, mas que ele havia lido e fixado. Letra infixa, irrequieta, difícil... O meu espanto e a minha gratidão. 

Essa carta merecia resposta. Fui deixando para o dia seguinte. Tinha de me sentir à altura. Um estúpido temor reverencial foi procrastinando o meu gesto. Resta-me agora o remorso... 

Jornal "PÚBLICO", Sábado, 16 de Março de 1996»