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terça-feira, 30 de abril de 2013

Pietá













Pietá 

É tragédia, é pranto, é ternura;
É esse filho morto no regaço
Duma mãe que pretende num abraço
Sonegar o seu filho à sepultura

Paradoxo de ver numa mortalha
O filho antes da mãe, que subverte
A ordem natural que a vida verte
E sem explicação que aqui valha.

O drama pessoal aqui vivido,
Que o génio verteu em pedra calma
E o drama espalhou por toda a parte

É esse deslimite sem sentido,
Esculpido na pedra e na alma,
Que faz da tragédia obra d’arte

António Amaro Rodrigues (18-4-2013)

Parque dos Poetas, em Oeiras (19)

Parque dos Poetas, em Oeiras, 21 de Março de 2013, no Dia Mundial da Poesia. 
A peregrinação (da parte da manhã) está quase a chegar ao fim. A minha amiga Júlia Malhoa, junto à estátua da poetisa Natália Correia, diz o poema 


A Defesa do Poeta

Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto.

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim.

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes.

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei.

Senhores professores que puseste
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição.

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis.

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além.

Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs na ordem ?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem ?

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa.
Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho !
a poesia é para comer.

Natália Correia (1923-1993)

domingo, 28 de abril de 2013

Parque dos Poetas, em Oeiras (18)



Parque dos Poetas, em Oeiras, 21 de Março de 2013, no Dia Mundial da Poesia. 

Continuando a nossa peregrinação (que já vai longa), a minha amiga Noémia, ainda junto à estátua do poeta Eugénio de Andrade, diz o poema 


POEMA À MÃE

No mais fundo de ti
Eu sei que te traí, mãe.

Tudo porque já não sou
O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.

Tudo porque ignoras
Que há leitos onde o frio não se demora
E noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
Talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
Que todo o meu corpo cresceu,
E até o meu coração
Ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -
Às vezes ainda sou o menino
Que adormeceu nos teus olhos;

Ainda aperto contra o coração
Rosas tão brancas
Como as que tens na moldura;

Ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
No meio do laranjal...

Mas - tu sabes - a noite é enorme,
E todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
Dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

Eugénio de Andrade, Os Amantes sem Dinheiro

sábado, 27 de abril de 2013

O Fecho Éclair


Hoje é Dia Mundial do Design. Se me pedissem para escolher um ícone, não tinha a menor dúvida: O Fecho Éclair. O rei Filipe II foi o dono da terra; comia num prato de prata lavrada; tinha um colar de oiro com pedras rubis; andava nas salas forradas de Arrás; dormia em cama de prata maciça. Um homem tão grande teve tudo o que quis. Só não teve um fecho éclair. Quem o diz é o poeta António Gedeão. 


Poema do Fecho Éclair 

Filipe II tinha um colar de oiro,
tinha um colar de oiro com pedras rubis.
Cingia a cintura com cinto de coiro,
com fivela de oiro,
olho de perdiz.

Comia num prato
de prata lavrada
girafa trufada,
rissóis de serpente.
O copo era um gomo
que em flor desabrocha,
de cristal de rocha
do mais transparente.

Andava nas salas
forradas de Arrás,
com panos por cima,
pela frente e por trás.
Tapetes flamengos,
combates de galos,
alões e podengos,
falcões e cavalos.

Dormia na cama
de prata maciça
com dossel de lhama
de franja roliça.
Na mesa do canto
vermelho damasco
a tíbia de um santo
guardada num frasco.

Foi dono da terra, 
foi senhor do Mundo,
nada lhe faltava,
Filipe Segundo.
Tinha oiro e prata,
pedras nunca vistas,
safira, topázios,
rubis, ametistas.
Tinha tudo, tudo 
sem peso nem conta,
bragas de veludo,
peliças de lontra.
Um homem tão grande
tem tudo o que quer.

O que ele não tinha
era um fecho éclair.

António Gedeão

sexta-feira, 26 de abril de 2013

António Paulouro à mesa do pão da fraternidade


António Paulouro nasceu no Fundão em 1915. Em 1946, com um grupo de amigos, criou o «Jornal do Fundão», o mais lido e respeitado semanário de província português. Em 1950 foi nomeado vice-presidente da Câmara Municipal do Fundão, mas, em 1958, bateu com a porta, por divergências profundas com o regime salazarista. 

Por essa razão, o «Jornal do Fundão» foi alvo de vigilância apertada tendo sido proibida a sua publicação durante seis meses, em 1965. 

António Paulouro esteve sempre ligado à cultura e aos livros. Em 1985, o Presidente da República condecorou-o com a Ordem da Liberdade.

Referiu, um dia, aquilo que bem pode ser a perfeita síntese da sua biografia: «Dizem que eu fiz um jornal, eu digo que foi o jornal que me fez a mim».

António Paulouro morreu em 2002. A cidade do Fundão, através da CM, decidiu homenagear este ilustre fundanense, inaugurando, em 2010, um monumento em granito, em sua honra, na Praça Velha. A escultura é da autoria do escultor Francisco Simões. 


Há duas semanas, passei pelo Fundão e de lá trouxe esta fotografia, que partilhei depois com o Professor Francisco Simões. Recebi dele, em resposta, esta bonita mensagem: 

«Obrigado Joaquim Boavida,
Gosto muito dessa escultura, simbolicamente representa a mesa da
redacção, mas também a mesa do pão da fraternidade.
Por outro lado é o retrato de um grande e saudoso amigo.
Bem haja.
Francisco Simões
»

Afinal, a escultura não mostra só o jornalista António Paulouro à mesa da redacção do seu jornal, como eu a vi e interpretei, mas também, e sobretudo, a mesa do pão da fraternidade! Muito bonito. Obrigado, Professor Francisco Simões.


quinta-feira, 25 de abril de 2013

Qual a cor da liberdade?


CANTIGA DE ABRIL 

Às Forças Armadas e ao povo de Portugal
«Não hei-de morrer sem saber qual a cor da liberdade»
J. de S.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Quase, quase cinquenta anos
reinaram neste pais,
e conta de tantos danos,
de tantos crimes e enganos,
chegava até à raiz.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Tantos morreram sem ver
o dia do despertar!
Tantos sem poder saber
com que letras escrever,
com que palavras gritar!

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Essa paz de cemitério
toda prisão ou censura,
e o poder feito galdério.
sem limite e sem cautério,
todo embófia e sinecura.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Esses ricos sem vergonha,
esses pobres sem futuro,
essa emigração medonha,
e a tristeza uma peçonha
envenenando o ar puro.

Qual a cor da liberdade?
É verde. verde e vermelha.

Essas guerras de além-mar
gastando as armas e a gente,
esse morrer e matar
sem sinal de se acabar
por politica demente.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Esse perder-se no mundo
o nome de Portugal,
essa amargura sem fundo,
só miséria sem segundo,
só desespero fatal.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Quase, quase cinquenta anos
durou esta eternidade,
numa sombra de gusanos
e em negócios de ciganos,
entre mentira e maldade.

Qual a cor da liberdade?
E verde, verde e vermelha.

Saem tanques para a rua,
sai o povo logo atrás:
estala enfim altiva e nua,
com força que não recua,
a verdade mais veraz.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

26-28(?)/4/1974
Obras de Jorge de Sena
"40 anos de servidão"



quarta-feira, 24 de abril de 2013

Parque dos Poetas, em Oeiras (17)



Parque dos Poetas, em Oeiras, 21 de Março de 2013, no Dia Mundial da Poesia. 
Chegou novamente a minha vez. Agora, junto à estátua do poeta Eugénio de Andrade, para dizer o poema "Adeus". Citando Valter Hugo Mãe, "ler a poesia de Eugénio de Andrade é passar a alma por água limpa". Eu conselho sábio que eu sigo muitas vezes.


Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade


terça-feira, 23 de abril de 2013

Os alfarrabistas são amigos dos livros


No dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor Alfarrabistas devemos uma palavra de louvor aos Alfarrabistas pela acção que desenvolvem na preservação de um conjunto documental (manuscritos, livros, etc…) 

E, a este propósito, qual a origem da palavra alfarrabista? 

Alfarrabista quer dizer pessoa que negoceia em alfarrábios, sendo que alfarrábio quer dizer livro antigo ou usado. Estas são as definições que vêm no Dicionário da Porto Editora. E, agora, qual a origem da palavra alfarrábio? Vem do árabe Al-Farābi. Existiu um sábio árabe, chamado Al-Farabi, também conhecido como Alfarábi ou simplesmente Farabi, nascido no Turquestão, no século X. O seu Grande Livro, ainda que velho, mesmo assim foi servindo, ao longo de séculos, muitas gerações de estudantes. Donde, a identificação que se estabeleceu entre Livro Velho e Alfarrábio. 

A palavra portuguesa alfarrábio não é mais que a aceitação, na etimologia da língua portuguesa, dessa identificação entre o nome do tal sábio turco e o livro velho.

Há casas de alfarrabistas que são autênticos sacrários de tesouros literários, que importa preservar.

domingo, 21 de abril de 2013

Parque dos Poetas, em Oeiras (16)



Parque dos Poetas, em Oeiras, 21 de Março de 2013, no Dia Mundial da Poesia. 
O nosso amigo José Beltrão, junto à estátua do poeta Miguel Torga, diz aquele poema que muitos consideram uma homenagem ao pai 


Bucólica 

A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;

De casas de moradia
Caídas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;

De poeira;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.

Miguel Torga

sábado, 20 de abril de 2013

Palavras Cruzadas com História

Temos já em agenda, eu e alguns amigos do CUTLA, uma visita ao Museu Calouste Gulbenkian, para ver a exposição Clarice Lispector – A Hora da Estrela, da qual falei aqui, ontem. 

Devo confessar que sei pouco desta escritora. Como a visita é só no dia 17 de Maio, vou ter de fazer um esforço adicional. Isto é, temos de fazer trabalho de casa...

Para já, vou deixar aqui, para os meus amigos, um problema de Palavras Cruzadas, a propósito da obra desta escritora. 

O desafio é, resolvido o problema, encontrar o título de um livro da escritora Clarice Lispector (4 palavras). Qual é? 
 
 









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HORIZONTAIS: 1 – Próximo; Moço. 2 – Globo; União Europeia [sigla]. 3 – Isolado; Lazer; Procede. 4 – Fila; Calculei. 5 – Tomba; Nota da Redacção [sigla]. 6 – Cobalto [símbolo químico]; Festa cristã que se realiza todos os anos e que comemora o nascimento de Jesus Cristo; Caminhava para lá. 7 – Atmosfera; Viagem pelo ar. 8 – Assassinai; Nome vulgar do óxido de cálcio. 9 - Levanta; Mistura de nevoeiro e fumo e/ou outros poluentes atmosféricos que cobre determinadas concentrações urbanas; Contracção da preposição “de” + o artigo definido “o”. 10 – Saudável; Manuel (…), escritor português, autor do livro de poesia “Praça da Canção”. 11 – Grande artéria que, nos vertebrados superiores, sai do ventrículo esquerdo, conduzindo, pelas suas numerosas ramificações, sangue arterial às diversas partes do corpo; Dividir ao meio.

VERTICAIS: 1 – Carga; Folhelho da espiga do milho. 2 – Elemento de formação de palavras que exprime a ideia de dentro, no interior; Órgão que movimenta o sangue ou outro líquido vital no corpo de certos animais. 3 Radiofrequência [sigla]; Alcoólicos Anónimos [sigla]; Tântalo [símbolo químico]. 4 – (…) Gersão, escritora portuguesa, autora do livro “A Cidade de Ulisses”; Ástato [símbolo químico]. 5 – Aldeia situada na vertente sul da Serra da Gardunha e que tem nome de mamífero; Imposto de Selo [sigla]. 6 – Grito de dor ou alegria; Liga; Ruim. 7Orçamento de Estado [sigla]; Pega. 8 – Conjunção que designa alternativa; Inculto. 9Assembleia Municipal [sigla]; Sufixo nominal que traduz a ideia de semelhança ou origem; Germânio [símbolo químico]. 10 – (…) de Andrade, escritor português, autor do livro de poesia “Os amantes sem dinheiro”; Doutora [abreviatura]. 11 – Que faz meias com alguém; Magoar.

Clique Aqui para imprimir as Palavras Cruzadas.

Parque dos Poetas, em Oeiras (15)







Parque dos Poetas, em Oeiras, 21 de Março de 2013, no Dia Mundial da Poesia. 


O nosso amigo Manuel Caleiro, junto à estátua do poeta José Régio, diz o poema 




Libertação

Menino doido, olhei em roda, e vi-me
Fechado e só na grande sala escura.
(Abrir a porta, além de ser um crime,
Era impossível para a minha altura...)

Como passar o tempo?...E diverti-me
Desta maneira trágica e segura:
Pegando em mim, rasguei-me, abri, parti-me,
Desfiz trapos, arames, serradura...

Ah, meu menino histérico e precoce!
Tu, sim!, que tens mãos trágicas de posse,
E tens a inquietação da descoberta!

O menino, por fim, tombou cansado;
O seu boneco aí jaz esfarelado...
E eu acho, nem sei como, a porta aberta!

José Régio

Clarice Lispector – A Hora da Estrela


Na galeria de Exposições Temporárias do Museu Calouste Gulbenkian, integrada nas comemorações do Ano do Brasil em Portugal, pode-se ver a exposição "Clarice Lispector – A Hora da Estrela", até 23 de Junho, 

Clarice Lispector (1920 - 1977), nasceu na Ucrânia e morreu no Brasil (Rio de Janeiro). Foi escritora e jornalista. De origem judaica, Clarice chegou ao Brasil quando tinha 1 ano e dois meses de idade, com a família, para fugir à perseguição aos judeus durante a Guerra Civil Russa de 1918-1921. Mais tarde, naturalizou-se brasileira.

Sempre que questionada de sua nacionalidade, Clarice afirmava não ter nenhuma ligação com a Ucrânia "Naquela terra eu literalmente nunca pisei: fui carregada de colo" A sua verdadeira pátria foi o Brasil. 

Em 1943, casou-se com Maury Gurgel Valente, um diplomata de carreira, o que lhe permitiu permanecer, por algum tempo,  em países da Europa. Como esposa do diplomata, Clarice esteve em Itália, onde serviu durante a Segunda Guerra Mundial, como assistente voluntária junto ao corpo de enfermagem da Força Expedicionária Brasileira.  Esteve, ainda, em Inglaterra, Estados Unidos da América e Suíça.  

Teve dois filhos, o Pedro nascido em Berna, na Suíça, e o Paulo nascido em Washington, nos Estados Unidos. O Pedro teve, na sua adolescência, problemas de atenção e agitação, diagnosticados como esquizofrenia. Clarice sentia-se de certa forma culpada pela doença do filho, e teve dificuldades em lidar com esta situação. 

Em 1959, separou-se do marido, que ficou na Europa, tendo ela voltado para o  Rio de Janeiro com os seus filhos, onde ficou a morar para sempre. 

Faleceu no dia 9 de Dezembro de de 1977, um dia antes de seu 57° aniversário. Ainda na manhã de seu falecimento, mesmo sob sedativos, Clarice ditava frases para sua amiga Olga Borelli. 

Em Dezembro de 1943,  publicou seu primeiro romance,"Perto do Coração Selvagem", quando tinha apenas 19 anos. Depois seguiram-se: Em  1946 “O Lustre”; em 1949 "A Cidade Sitiada"; em 1961 "A Maçã no Escuro"; em  1964 “A Legião Estrangeira” e “A Paixão segundo G. H."; em 1969 "Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres"; em  1973 “Água Viva”; em 1974 “A Via Crucis do Corpo” e “Onde Estivestes de Noite”.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Parque dos Poetas, em Oeiras (14)









Parque dos Poetas, em Oeiras, 21 de Março de 2013, no Dia Mundial da Poesia. 

A nossa querida Maria do Carmo, junto à estátua do poeta José Régio, diz o poema






Cântico Negro 

“Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!


José Régio

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Senhora do Bom Sucesso



Virgem Mãe do Bom Sucesso
Para lá vamos andando;
A ribeira da Bazágueda
Hemos de passar cantando

Esta é uma quadra que se canta à Senhora do Bom Sucesso. Eu estive lá no último fim-de-semana, mas não ouvi esta quadra, nem nenhuma outra. Se calhar, isso foi antigamente, quando os romeiros iam de véspera, em romaria festiva, em carros de bois engalanados. Acontece no 3º Domingo depois da Páscoa e tem lugar no concelho de Penamacor, num local deserto, muito perto da fronteira com Espanha. Tão perto de Espanha, que eram mais os romeiros espanhóis que portugueses! 



A festa é religiosa, dedicada à Senhora do Bom Sucesso, mas de religiosa só já tem o nome. É o sinal dos tempos. Fez-me muita impressão estar junto da capela e, enquanto decorria a cerimónia religiosa, havia no ar uma nuvem de fumo e sentia-se um cheiro a bifanas e a frango assado...enquanto altifalantes debitavam música em altos berros. Enfim, uma mistura do religioso com o profano. O povo gosta assim e assim se deve manter.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

António Gedeão e os gatos






Poema do gato

Quem há-de abrir a porta ao gato
quando eu morrer?

Sempre que pode
foge prá rua,
cheira o passeio
e volta para trás,
mas ao defrontar-se com a porta fechada
(pobre do gato!)
mia com raiva
desesperada.
Deixo-o sofrer
que o sofrimento tem sua paga,
e ele bem sabe.

Quando abro a porta corre para mim
como acorre a mulher aos braços do amante.
Pego-lhe ao colo e acaricio-o
num gesto lento,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos,
olhos semi-cerrados, em êxtase,
ronronando.
Repito a festa,
vagarosamente.
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele aperta as maxilas,
cerra os olhos,
abre as narinas.
e rosna.
Rosna, deliquescente,
abraça-me
e adormece.

Eu não tenho gato, mas se o tivesse
quem lhe abriria a porta quando eu morresse?


António Gedeão, em Novos Poemas Póstumos, 1990

Rómulo de Carvalho, o poeta António Gedeão, nunca teve um gato, quem o diz, se dúvidas houvesse, é a escritora Cristina Carvalho, filha do poeta, no livro "Rómulo de Carvalho/António Gedeão-Príncipe Perfeito".

Li o livro de supetão, aproveitando o fim de semana passado na Beira Baixa, nas campinas de Idanha, à vista do morro de Monsanto. 

O livro fala-nos mais do cidadão Rómulo de Carvalho que do poeta António Gedeão. A narradora consegue agarrar o leitor logo nas primeiras páginas, tão interessantes são os apontamentos que nos dá a conhecer  da vida do Professor de Físico-Química, que, por medo, escolheu um pseudónimo para poetar.