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terça-feira, 14 de janeiro de 2014

O Ano da Morte de Ricardo Reis


Saramago escreveu o Ano da Morte de Ricardo Reis em 1994. Foi muito engenhoso na arquitectura da narrativa, assentando-a em dois pilares.

Primeiro, ele parte de um enigma. Fernando Pessoa escrevera em 13/1/1935 «Ricardo Reis nasceu em 1887 (não me lembro do dia e mês, mas tenho-os algures), no Porto, é médico e está presentemente no Brasil (…) Reis de um vago moreno mate (…) Ricardo Reis, educado num colégio de jesuítas, é, como disse, médico; vive no Brasil desde 1919, pois se expatriou espontaneamente por ser monárquico. É, um latinista por educação alheia, e um semi-helenista por educação própria.». O que aconteceu a Ricardo Reis? Saramago vai decifrar esse enigma.

Segundo, Saramago admirava muito Fernando Pessoa e era um grande leitor da sua poesia que muito apreciava. Porém, alguns poemas de Pessoa deixavam-no nervoso. E um deles era de Ricardo Reis: “Sábio é o que se contenta com o espectáculo do Mundo”. Saramago pergunta: Contemplar é sábio? O que dizes? Não percebe a personagem que é assim uma soma de passividade, silêncio sábio e puro espírito. Anda daí, Pessoa, que te vou mostrar o mundo, a ver se acabas mais sábio ou simplesmente acabas invadido de tristeza e de dor, se não quiseres reagir. 

Saramago cria a sua versão alternativa da história, a que poderia ter sido, fazendo uso de informações oficiais e misturando-as com fontes oficiosas. Era o que Saramago achava que se tinha de fazer. E, então, Saramago mostra-lhe o espectáculo do Mundo no ano de 1936, o ano em que se incuba o ovo da serpente, se gera o nazismo, o fascismo, começa a Guerra da Espanha, a Mocidade Portuguesa, a Legião Portuguesa, estão a começar todas essas ditaduras e tragédias que atravessaram o séc. XX.

Então, Saramago põe Ricardo Reis, não existente, existente. E põe o Fernando Pessoa, já morto, vivo. Aqui, Saramago “inventa” uma teoria que lhe dá jeito para a narrativa: nos 9 meses seguintes à morte, ainda não se está morto de todo. E, assim, fá-los dialogar e fá-los percorrer a cidade de Lisboa. Percorre a poesia de Pessoa ortónimo e de outros (João de Deus, Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, etc.. Fala de Pessoa, fala do Mundo, fala de nós. 

É um livro que reflecte a cidade de Lisboa. O escritor chileno José Danoso escreveu: "Lisboa e Dublin podiam ser reconstruídas com o espírito que habita em “Ulisses”, de Joyce, e em “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, de José Saramago". No caso português, confirma-se totalmente. Somos convidados a percorrer a cidade de Lisboa, por locais, sobretudo, do universo pessoano. 

O tempo da narrativa vai de 29/12/1935 (o dia em que Ricardo Reis chega ao cais de Alcântara) a 9/9/1936 (data do bombardeamento do navio Afonso de Albuquerque no rio Tejo e do dia em que Ricardo Reis acompanha Fernando Pessoa no regresso deste ao Cemitério dos Prazeres).

A narrativa decorre toda ela na cidade de Lisboa, à excepção da peregrinação a Fátima. 

Uma grande força do livro é a sua intertextualidade. Saramago fala de Camões, de João de Deus, de Alberto Caeiro, de Bernardim Ribeiro, de Cervantes, de Álvaro de Campos, de Carlos Queiroz, de Júlio Dantas e, sobretudo, da poesia de Ricardo Reis.

Anotei 26 páginas com referências a poemas de Ricardo Reis. E esses poemas (com citação de um ou dois versos) estão espalhados ao longo da narrativa. Só na pág. 255 (na edição do Círculo de leitores de 1984) há 14 citações de poemas! Até parece uma charada, mas não é. 

Os encontros entre F.P. e R.R. são 11, contando com o do último dia, com diálogos inteligentes e deliciosos. Ao fim dos 9 meses, Fernando Pessoa já não vai poder sair do Cemitério dos Prazeres. Então vamos, disse Fernando Pessoa. Vamos, disse Ricardo Reis. E lá foram os dois. Afinal, ficamos a saber que o ano da morte de Ricardo Reis é 1936. 

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