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segunda-feira, 30 de junho de 2014

Cinco galinhas e meia...

Ontem, aproveitando a brisa da tarde, passeei-me por Cascais. Depois de saborear um gelado da Casa de Gelados Santini, “procurei” D. António de Castro, fidalgo, caloteiro do piorio. A história é conhecida. 

D. António, senhor de Cascais, pediu ao poeta Luís de Camões uns versos, prometendo, em pagamento, enviar-lhe seis galinhas recheadas. Mas só lhe remeteu meia galinha. 

O poeta não se conteve e endereçou-lhe esta quadra:

Cinco galinhas e meia
Deve o senhor de Cascais;
E a meia vinha cheia
De apetite para as mais.

sábado, 28 de junho de 2014

Lisboa, nos passos de Cesário Verde

A reunião dos peregrinos foi junto à Sé de Lisboa, pelas 10 horas. Dia 26 de Junho do ano de 2014. Hoje, o roteiro vai à procura do poeta Cesário Verde na cidade de Lisboa. A Susana, da Divisão Cultural da CML, é quem nos vai guiar nesta peregrinação.

Antes de começar a percurso, Susana faz a apresentação do poeta e, desde logo, confronta-nos com uma pergunta. Terá sido, no seu tempo, Cesário Verde um poeta esquecido? Escolhe o poema "Esplêndida". 

Ei-la! Como vai bela! Os esplendores
Do lúbrico Versailles do Rei-Sol
Aumenta-os com retoques sedutores
É como o refulgir dum arrebol 
          Em sedas multicores.

Deita-se com langor no azul celeste
Do seu landau forrado de cetim;
E os negros corcéis que a espuma veste,
Sobem a trote a Rua do Alecrim, 
           Velozes como a peste.
(...)

Este poema não foi bem aceite nos meios literários. Ramalho Ortigão cravou-lhe uma farpa. Escreveu ele, «… o snr. Cesário Verde, ao qual sinceramente desejamos que estas modestas observações contribuam para que continue a ilustrar o seu nome, tornando-se cada vez menos Verde e mais Cesário.” Injusto este Ramalho!

Deixamos a Sé para trás e descemos até ao vestíbulo da Igreja da Madalena. Não se sabe ao certo onde nasceu o poeta. Na Rua dos Fanqueiros? ou na Rua da Padaria? Certo mesmo, sabemos que foi baptizado nesta Igreja da Madalena, com quatro meses de idade. A Susana traz consigo uma cópia do registo da baptismo. José Joaquim Cesário Verde nasceu no dia 25 de Fevereiro.  José, o nome do pai, Joaquim, o nome do padrinho, Cesário, por ter nascido no dia de São Cesário e Verde, o nome de família.

Continuamos a descer em direção ao rio, damos agora uma espreitadela à Rua da Padaria, Ali no nº 16 é um dos locais prováveis para o nascimento do nosso poeta.

Depois, um salto à Rua dos Fanqueiros, ali perto, no nº 9 (atual), outro local frequentemente citado para o nascimento do poeta. Fica a dúvida. Do outro lado da rua, ficava a loja comercial pertencente ao pai, que ocupava os nºs 2 a 10, do edifício que faz esquina com a Rua do Alfândega. 

Lisboa era. ao tempo, uma cidade imunda, fragilizada aos primeiros sinais de cólera que entrava pela barra do Tejo. A família Verde mudou de casa, sucessivamente, para a Rua do Salitre, depois para a Rua das Trinas (Madragoa). 

No Verão de 1857, a família abandonou mesmo a capital, por largos períodos, refugiando-se em Linda-a-Pastora, onde tinha uma casa com quinta. Cesário virá evocar essa fuga no poema “Nós”.  

Foi quando em dois Verões, seguidamente, a Febre
E o Cólera também andaram na cidade,
Que esta população, com um terror de lebre,
Fugiu da capital como da tempestade.

Ora, meu pai, depois das nossas vidas salvas,
(Até então nós só tivéramos sarampo),
Tanto nos viu crescer entre uns montões de malvas
Que ele ganhou por isso um grande amor ao campo!
(…)

Apesar de todos os cuidados, morreu a irmã Maria Julia, a primogénita, aos 19 anos e, também, a irmã Adelaide Eugénia, quando só tinha ainda 3 anos. Cesário irá recordá-la no já citado poema "Nós":

(...)
E foi num ano pródigo, excelente,
Cuja amargura nada sei que adoce,
Que nós perdemos essa flor precoce,
Que cresceu e morreu rapidamente!

(...)

É tempo de continuar a nossa peregrinação. Seguimos agora pela rua da Conceição, até à Rua Augusta. Passamos pela casa onde nasceu o poeta Mário de Sá Carneiro. Lá está uma placa a assinalar o acontecimento, no nº 93/95, 1º andar.

Cesário Verde deve muito aos poetas do Orfheu. Mário de Sá Carneiro, ao passar por Barcelona, com o contributo do catalão Ribera i Rovira, deu a conhecer o poeta Cesário Verde para lá da fronteira.

Mas foi sobretudo graças a Fernando Pessoa que Cesário Verde emergiu do limbo onde se encontrava e viu, finalmente, reconhecido o seu valor. No Livro do Desassossego, Pessoa, pela pena do Bernardo Soares, irá escrever:“Vivo numa época anterior àquela em que vivo; gozo de sentir-me coevo de Cesário Verde, e tenho em mim, não outros versos como os dele, mas a substância igual à dos versos que foram dele.

Foi então tempo da Susana ler um pequeno excerto do poema "Contrariedades",

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
         Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes 
       E os ângulos agudos.
(...)

Digam lá se não estamos perante um poema percursor de Álvaro de Campos? Este, mais tarde, irá evocar Cesário escrevendo «Das ruas ao cair da noite, ó Cesário Verde, ó Mestre, / Ó do «Sentimento de um Ocidental»!". Cesário Verde, o mestre!»

Deslizando agora pela Rua da Augusta em direcção à praça do Rossio, cruzámos a Rua da Assunção. Aqui, morou António de Macedo Papança (futuro conde de Monsaraz), grande amigo de Cesário. O Conde de Monsarz (o autor do poema "O Senhor Morgado" que Adriano Correia de Oliveira virá muito mais tarde a imortalizar) promoveu, nesta casa, saraus literários onde Cesário se cruzou com Guerra Junqueiro, Gomes Leal e João de Deus. Nenhum prestará atenção aos seus poemas. Onde já se viu um comerciante a poetar?

Na esquina da Rua da Assunção com a Rua Augusta existia (e ainda existe) a casa "Nunes Correia", fundada em 1856.


Cesário Verde, poeta e comerciante rico, que gostava de andar elegante, e na moda, provavelmente, comprava aqui os seus fatinhos. Cesário tinha boa figura. Por influência do seu grande amigo Silva Pinto, um liberal, Cesário é arrastado para a boémia revolucionária no “Martinhodas mesas espelhentas

Fialho de Almeida irá descrevê-lo assim: “O tipo era seco, com uma ossatura poderosa, a pele de fêmea loura, rosada, de bom sangue, a cabeça pequena e grega, com uma testa magnífica, e feições redondas, onde os olhos amarelo-pardos de estátua, ligeiramente míopes, tinha a expressão profunda, rectilínea, longínqua, que a gente nota nos marítimos acostumados a interrogar o oceano por dilatadas extensões”.

Foi tempo de Suasana ler o poema “Ele”, outro poema que deu polémica. Pode ter sido no café Martinho que o poeta o compôs, em fins de 1973 (epigrafado Ao Diário Ilustrado) 

Era um deboche enorme, era um festim devasso!
No palácio real brilhava infame orgia.
E até bebiam vinho os mármores do paço!
(…)
Na praça, de manhã, havia, ó rei brutal!
Montões de sordidez horrível e avinhada...
- Nascera o Ilustrado - um vómito real!


Cesário ataca o Rei D. Luís, mas o poema, com um toque panfletário, não agradou nem a republicanos nem a monárquicos. Cesário era um liberal, um republicano, mas não militava em nenhum partido. 

A nossa peregrinação aproxima-se do fim. Dirigimo-nos para a porta do restaurante "Leão de Ouro", ao lado da estação do Rossio. Espera-nos, no interior do restaurante, um quadro (melhor uma cópia) célebre do mestre Columbano.


Em 1881, Cesário participou em reuniões do chamado "Grupo do Leão" (uma referência ao nome do restaurante) com outros literatos, como Fialho de Almeida entre outros. Também participaram nessa tertúlia pintores da época, como José Malhoa e os irmãos Columbano e Rafael Bordalo Pinheiro. O "Grupo do Leão" foi imortalizado em 1885 num conhecido quadro a óleo da autoria do Columbano, que se pode ver no Museu do Chiado.



Cesário Verde, tal como Fialho de Almeida, foram esquecidos pelo pintor. Esquecimento? Talvez não...

Não faz mal, porque, dessa tertúlia, será Cesário, um não pintor, que antecipará a chegada do impressionismo a Portugal. O seu poema "De Tarde" é como uma tela de Renoir:

Naquele pic-nic de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampamos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto
 da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

Desta vez, Susana leu o poema na integra e deu por fim o percurso. Obrigado, Susana, Adeus, até ao próximo!

Mas, Susana, era só atravessar a rua para acabarmos a nossa peregrinação diante do edifício onde foi dantes o "Martinho". Que pena. Não resisto às mesas espelhentas do Martinho. Falo do poema "Arrojos".

Se a minha amada um longo olhar me desse
Dos seus olhos que ferem como espadas,
Eu domaria o mar que se enfurece
E escalaria as nuvens rendilhadas.
(...)
E se aquela visão da fantasia
Me estreitasse ao peito alvo como arminho,
Eu nunca, nunca mais me sentaria
Às mesas espelhentas do Martinho.

No final, só me apetece bradar como fez Álvaro de Campos: «Ó Cesário Verde, ó Mestre!»

terça-feira, 24 de junho de 2014

Uma vida lembrada não tem limites?


A escritora Teolinda Gersão encontrou uma forma engenhosa para, no seu último romance “Passagens”, contar a história de uma família. Confesso que ao ouvir falar, pela primeira vez, do livro, sublinhando-se que o tempo da narrativa corresponde ao tempo da duração de um velório, vieram-me à memória dois livros: “As Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis e “Até ao Fim”, de Vergílio Ferreira. 

O primeiro, que eu, irresponsavelmente, ainda não li, é a narrativa de um “defunto autor” que deseja escrever a sua autobiografia.

O segundo, que eu, obsessivamente, já li mais que uma vez, é a história de um pai, Cláudio, que na noite que está a velar o filho Miguel se lhe dirige em monólogo, através do qual conta a história da sua vida. Este, magnífico!

Passagens” é um romance sobre a história de Ana, sendo que a sua história é contada por ela própria (às vezes, desdobrada em si), recordada por vários elementos da família, sobretudo a filha Marta, e, ainda, por outras pessoas fora da família (veja-se, p.e., o longo monólogo da criada Conceição do lar onde Ana morreu). 

Aspecto que achei interessante é a estrutura da narrativa que se parece muito, à primeira vista, de uma peça de teatro. Mas isso não acontece por acaso. Este romance pertence àquele tipo de livros que nos coloca perante um palco, onde decorre justamente um drama humano. Temos um teatro dentro do grande Teatro da Vida. Uma harmonia perfeita entre o teatro da vida e a vida em teatro. 

Estamos perante um livro que, de certo modo, implica uma leitura dolorosa. O tema da morte não é fácil. “Passagens” é um romance deprimente? Penso que não. A autora tem esse mérito. É mais uma celebração da vida do que da morte.

O que fica da leitura deste livro? Um acento tónico na recordação, A nossa vida pode ser mais que um tempo finito (limitado ao tempo vivido), desde seja recordado. Aí, nessa dimensão, a nossa vida não tem limites. Será mesmo assim? Ou, como escreveu o poeta David Mourão-Ferreira, “há-de vir um Natal e será o primeiro em que o nada retome o Infinito”.

sábado, 21 de junho de 2014

Palavras-cruzadas com História

TEOLINDA GERSÃO” é o nome da escritora portuguesa que foi pedido no passatempo do dia 30 de Maio. E esta é a solução completa do problema:


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Recebi respostas, no e-mail e no Facebook, de: Aleme, Anjerod, António Amaro, Arnaldo Sarmento, Baby, Carlos Costeira, Bábita Marçal, Magno, Filomena Alves, Jani, João Alberto Bentes, José Bernardo, Mafirevi, Manuel Amaro, Mister Miguel, Olidino, Osair Kiesling, Pedro Varandas, Russo e Salete Saraiva. 

Agradeço, penhorado, a todos que participaram. Até ao próximo!

sexta-feira, 13 de junho de 2014

O verdadeiro Santo António


Hoje, é Dia de Santo António, data da sua morte em Pádua, no ano de 1231. Santo António de Lisboa ou Santo António de Pádua? Entre nós, apetece dizer que há dois Santos: Um, verdadeiro, que faz parte da História, Doutor da Igreja que viveu na viragem dos séculos XII e XIII; outro, mito popular, casamenteiro. 

Falemos de História. O Santo António nasceu em Lisboa, não sendo conhecida a data exacta do seu nascimento, sendo apontado, como mais provável, o ano de 1195. O local do nascimento também não é conhecido. Todavia, em Lisboa, há um lugar que se tornou local de romaria, por se acreditar que tenha sido aquele o quartinho do seu nascimento. Ali, muito perto da Sé. Naquele lugar “segundo a tradição”, como lá está escrito em latim, mas não mais do que isso. O Papa João Paulo II, numa das suas vindas a Portugal, esteve lá. 

Os pais seriam remediados, pois, só assim, se justifica ter o Santo estudado. Primeiro, na Sé de Lisboa, onde terá aprendido as primeira letras e teve as primeiras aulas de Latim. Depois foi para o Convento de São Vicente de Fora, dos Regrantes de Santo Agostinho. Esteve aqui entre 1211 e 1212. Quando aconteceu a reconstrução do Convento, foi construída uma capela no local onde se julga ter sido a cela do Santo. 

Com 15 anos, foi para Coimbra, para entrar Ordem de Santa Cruz de Coimbra. Ao tempo, ainda não havia Universidade, e este Convento é era o principal centro de estudos em Portugal. 

Em 1220, não se sabendo bem porquê, o Santo deixou a Ordem dos Regrantes de Santa Cruz, e foi para o Conventinho, no arrabalde de Coimbra, a meia légua do centro da cidade. Tornou-se franciscano, renunciou à riqueza e à soberba dos frades de Santa Cruz. Tornou-se irmão franciscano. No lugar do Conventinho (antes um humilde eremitério) está hoje a Igreja de Santo António dos Olivais. 

Foi neste tempo que passou a chamar-se António, em honra de Santo Antão (Antonius em latim), um asceta. O nome de baptismo, Fernando Martins, ficou para trás. Um despojamento total dos bens materiais, incluindo o nome. Esteve aqui pouco tempo, apenas 6 meses. 

Daqui partiu para uma viagem formidável, da qual nunca mais voltou. Não é certo que tenha passado por Marrocos, como alguns defendem. Certo, é que chegou a Itália, tendo estado presente no Concílio de São Francisco de Assis, não lhe sendo conhecida nenhuma intervenção. Depois, foi designado para um eremitério em Montepaolo, na província da Romagna, onde passou cerca de quinze meses. Depois, foi viver para Forli, perto de Bolonha. 

Um dia, faltou o pregador e foi-lhe pedido para que fosse ele a falar. Protestou, mas obedeceu. No final, todos estavam assombrados. Uma linguagem cheia de imagens, um conjunto encadeado de ideias, tudo assente numa sólida formação. Para a História, ficaram os sermões, que são ainda um precioso documento de estudo da época. Num sermão, que ficou célebre, disse para os que o ouviam (não tenho as palavras exactas, mas dá para perceber a ideia): 

“Vós que ostentais túnicas vermelhas que nos dizem pintadas com cores do Oriente, é mentira!, são vermelhas, sim,  pintadas com o sangue dos pobres!”.

Que falta fazem hoje pregadores assim!

segunda-feira, 9 de junho de 2014

A Morte sem Mestre, segundo Herberto Helder



Chegou hoje às livrarias o novo livro de Herberto Hélder, A Morte sem Mestre, lançado pela Porto Editora, que inclui um CD com poemas ditos pelo poeta.

O livro apresenta uma originalidade, tem uma capa em papel craft (uma espécie de almaço) com o nome do autor e título do livro escritos à mão pelo próprio poeta. Trata-se de uma solução gráfica que reproduz o modo como Herberto Hélder encapa os livros na sua biblioteca.

Segundo avisou a Editora, A Morte sem Mestre, terá apenas uma edição, como aliás aconteceu com as anteriores. Sempre por vontade expressa do autor. 

Assim sendo, é de esperar, a exemplo do que aconteceu com A Faca Não Corta o Fogo e Servidões, a tiragem se esgote rapidamente.

Por isso, tirei-me das minhas tamanquinhas e fui, propositadamente, à Bertrand e truxe para casa um exemplar do livro (o empregado que me atendeu ainda perguntou se queria mais que um), que me custou €22,00 (preço de capa).

Se um dia me zangar com o poeta, não vou, de certeza, perder dinheiro. Com o Servidões também despendi a mesma quantia de €22,00, mas, consultando a internet (OLX), o preço pedido anda já à volta de €100,00. Com o poeta Herberto Hélder ganhamos com a sua poesia e investimos, com proveito, as nossas economias.

Deixo aqui o último poema do livro e que é também um dos poemas ditos pelo poeta no CD que acompanha o livro.


a última bilha de gás durou dois meses e três dias,
com o gás dos últimos dias podia ter-me suicidado,
mas eis que se foram os três dias e estou aqui
e só tenho a dizer que não sei como arranjar dinheiro para outra bilha,
se vendessem o gás a retalho comprava apenas o gás da morte,
e mesmo assim tinha de comprá-lo fiado,
não sei o que vai ser da minha vida,
tão cara, Deus meu, que está a morte,
porque já me não fiam nada onde comprava tudo,
mesmo coisas rápidas,
se eu fosse judeu e se com um pouco de jeito isto por aqui acabasse nazi,
já seria mais fácil,
como diria o outro: a minha vida longa por muito pouco,
uma bilha de gás,
a minha vida quotidiana e a eternidade que já ouvi dizer que a habita e move,
não me queixo de nada no mundo senão do preço das bilhas de gás,
ou então de já mas não venderem fiado
e a pagar um dia a conta toda por junto:
corpo e alma e bilhas de gás na eternidade
— e dizem-me que há tanto gás por esse mundo fora,
países inteiros cheios de gás por baixo!

Herberto Hélder, in “A Morte sem Mestre”
Porto Editora, 2014

sexta-feira, 6 de junho de 2014

José Saramago e O Ano da Morte de Ricardo Reis

Miradouro de Santa Catarina, Lisboa, vista sobre o rio Tejo, 10 horas da manhã do dia 27 de Maio de 2014. Susana, do Departamento de Acção Cultural, da CML, que nos guiará, dá as boas-vindas aos peregrinos do roteiro José Saramago e O Ano da Morte de Ricardo Reis.

O rio Tejo à nossa frente, não muito longe o cais de Alcântara, onde Ricardo Reis, no dia 30 de Dezembro de 1935, desembarcou do Highland Brigade, navio que o trouxe do Brasil, quando soube da morte de Fernando Pessoa. Há exactamente um mês.

Um táxi havia de o levar ao Hotel Bragança, na Rua do Alecrim, onde ficou hospedado durante os primeiros meses.

Mais tarde, Ricardo Reis pensou arrendar uma casa, o seu projecto era voltar a exercer Medicina. Donde, após algumas buscas, encontrou a casa que queria, justamente muito perto do sítio onde ainda nos encontramos, o Miradouro de Santa Catarina. 

Foi tempo da Susana, após esta descrição, ler o seguinte extracto do romance:
[…] Ricardo Reis aproximou-se duma janela, da vidraça sem cortina viu as palmeiras do largo, o Adamastor, os velhos sentados no banco, e o rio sujo de barro lá adiante, os barcos de guerra com a proa virada para terra, por eles não se sabe se a maré está a encher ou a vazar, demorando aqui um pouco logo veremos, Quanto é a renda, quanto é a indemnização pela mobília, em meia hora, se tanto, com algum discreto regateio, se puseram de acordo, o procurador já tinha visto que estava a tratar com pessoa digna e de posição, Amanhã vossa excelência passa pelo meu escritório para tratarmos do arrendamento, e olhe, senhor doutor, deixo-lhe a chave, a casa é sua. Ricardo Reis agradeceu, fez questão de pagar um sinal acima do valor convencionado nestas transacções, o procurador passou ali mesmo um recibo provisório, sentou-se à secretária, puxou da caneta de tinta permanente chapeada de enfeites de ouro, folhas e ramagens estilizadas, no silêncio da casa ouvia-se apenas o raspar do aparo no papel, a respiração um pouco sibilante, asmática, do homem, Pronto, aqui tem, não precisa vossa excelência de se incomodar, eu tomo um táxi, calculo que ainda queira ficar um bocadinho a saborear a sua nova casa, eu compreendo, as pessoas querem muito às casas, a senhora que aqui morava, coitada, o que ela chorou no dia em que saiu, ninguém a podia consolar, mas a vida às vezes obriga, a doença, a viuvez, o que tem de ser tem de ser e tem muita força, então lá o espero amanhã. Sozinho agora, com a chave na mão, Ricardo Reis percorreu de novo toda a casa, não pensava, olhava apenas, depois foi à janela, a proa dos barcos estava virada para cima, para montante, sinal de que a maré descia. Os velhos continuavam sentados no mesmo banco […]. 


Foi altura de o grupo abandonar este local e começar verdadeiramente a nossa peregrinação. Olhei ainda para trás, lá estava o Adamastor, não haja dúvidas que Luís de Camões exagerou muito no rosto carregado. Só não vi os velhos sentados no banco.

A estação seguinte foi a Praça Luís de Camões, onde Ricardo Reis conseguiu arranjar um consultório, cedido, ainda que temporariamente, por um colega de profissão.

Foi tempo da Susana ler mais um extracto do romance:
[…] É primavera, veja que engraçado, aquele pombo em cima da cabeça do Camões, os outros pousados nos ombros, é a única justificação e utilidade das estátuas, servirem de poleiro aos pombos, porém as conveniências do mundo têm mais força, Marcenda apareceu à porta, Faz favor de entrar, dizia mesureira a empregada, subtil pessoa, muito competente na arte de distinguir posições sociais e níveis de riqueza, Ricardo Reis esqueceu-se dos olmos, das tílias, os pombos levantaram voo, alguma coisa os assustou ou deu-lhes o apetite de mexer as asas, de voar, na Praça de Luís de Camões a caça está proibida todo o ano, fosse esta mulher pomba e não poderia voar, asa ferida […].

Adiante, para trás ficava a estátua do vate da epopeia lusitana, com os pombos à volta. Triste destino este, o das estátuas.


Descemos a Rua do Alecrim, seguindo as calhas dos eléctricos. Logo, à direita, o Largo Barão Quintela. Aí parámos diante da estátua de Eça de Queirós. Lá está a famosa frase que Eça deixou, como epigrafe, no romance “A Relíquia”.

Susana abriu o livro do Saramago para ler mais uma passagem:
[…] provavelmente a língua é que vai escolhendo os escritores de que precisa, serve-se deles para que exprimam uma parte pequena do que é, quando a língua tiver dito tudo, e calado, sempre quero ver como iremos nós viver. Já as primeiras dificuldades começam a surgir, ou não serão ainda dificuldades, antes diferentes e questionadoras camadas do sentido, sedimentos removidos, novas cristalizações, por exemplo, Sobre a nudez forte da verdade o manto diáfano da fantasia, parece clara a sentença, clara, fechada e conclusa, uma criança será capaz de perceber e ir ao exame repetir sem se enganar, mas essa mesma criança perceberia e repetiria com igual convicção um novo dito, Sobre a nudez forte da fantasia o manto diáfano da verdade, e este dito, sim, dá muito mais que pensar, e saborosamente imaginar, sólida e nua a fantasia, diáfana apenas a verdade, se as sentenças viradas do avesso passarem a ser leis, que mundo faremos com elas, milagre é não endoidecerem os homens de cada vez que abrem a boca para falar […].

O Eça que desembrulhe esta charada. Eu já tenho que chegue. Continuamos a descer a Rua do Alecrim, em direcção do Hotel Bragança. Lá está o edifício, o primeiro do lado direito, do lado de quem sobe. O hotel em que se hospedou o monárquico Ricardo Reis, regressado do Brasil, para onde se exilara em 1919, depois de uma falhada Revolta no Norte.

Foi tempo de Susana voltar ao livro para ler as linhas que descreve a chegada de Ricardo Reis ao hotel:
[…] Gostava era de um quarto de onde pudesse ver o rio, Ah muito bem então vai gostar do duzentos e um, ficou livre esta manhã, mostro-lho já. A porta ficava ao fim do corredor, tinha uma chapazinha esmaltada, números pretos sobre fundo branco, não fosse isto um recatado quarto de hotel, sem luxos, fosse duzentos e dois o número da porta, e já o hóspede poderia chamar-se Jacinto e ser dono duma quinta em Tormes, não seriam estes episódios de Rua do Alecrim mas de Campos Elísios à direita de quem sobe como o Hotel Bragança, e só nisso e que se parecem […].


A Susana leu mais um trecho, indispensável fazê-lo, para lembrar que foi aqui que se deu o primeiro encontro entre Ricardo Reis e Fernando Pessoa. Ouçamos:
[…] é então que Ricardo Reis repara que por baixo da sua porta passa uma réstia luminosa, ter-se-ia esquecido, enfim, são coisas que podem acontecer a qualquer, meteu a chave na fechadura, abriu, sentado no sofá estava um homem, reconheceu-o imediatamente apesar de não o ver há tantos anos, e não pensou que fosse acontecimento irregular estar li à sua espera Fernando Pessoa, disse Olá, embora duvidasse de que ele lhe responderia, nem sempre o absurdo respeita a lógica, mas o caso é que respondeu, disse Viva, e estendeu-lhe a mão, depois abraçaram-se, Então como tem passado, um deles fez a pergunta, ou ambos, não importa averiguar, considerando a insignificância da frase […].

Para trás ficou o Cais do Sodré, seguimos agora a Rua do Arsenal. A próxima paragem vai ser no átrio da Câmara Municipal de Lisboa. Aqui nos recolhemos para fugir à algazarra dos carros que mal deixa ouvir as leituras da nossa guia.

Local carregado de simbolismo politico, foi aproveitado para a Susana, agora mais confortada, ler mais dois trechos.

O primeiro, sobre o discurso do pai de Marcenda, um adepto incondicional de Salazar. Ao jantar, ainda no Hotel Bragança, o Dr. Sampaio dirige-se a Ricardo Reis nestes termos:
[…] A nós o que nos vale, meu caro doutor Reis, neste cantinho da Europa, é termos um homem de alto pensamento e firme autoridade à frente do governo e do país, estas palavras disse-as o doutor Sampaio, e continuou logo, Não há comparação possível entre o Portugal que deixou ao partir para o Rio de Janeiro, e o Portugal que veio encontrar agora, bem sei que voltou há pouco tempo, mas, se tem andado por aí, a olhar com olhos de ver, é impossível que não se tenha apercebido das grandes transformações, o aumento da riqueza nacional, a disciplina, a doutrina coerente e patriótica, o respeito das outras nações pela pátria lusitana, sua gesta, sua secular história e seu império, Não tenho visto muito, respondeu Ricardo Reis, mas estou a par do que os jornais dizem, Ah, claro, os jornais, devem ser lidos, mas não chega, é preciso ver com os próprios olhos, as estradas, os portos, as escolas, as obras públicas em geral, e a disciplina, meu caro doutor, o sossego das ruas e dos espíritos, uma nação inteira entregue ao trabalho sob a chefia de um grande estadista verdadeiramente uma mão de ferro calçada com uma luva de veludo que era do que andávamos a precisar, Magnifica metáfora, essa, Tenho pena de a não ter inventado eu […].


De seguida, é tempo de Susana nos falar da parte do livro em que Saramago descreve a ida de Ricardo Reis ao comício que teve lugar na Praça de Touros do Campo Pequeno, numa noite quente do final de Agosto de 1936, no qual se juntaram Sindicatos vindos de toda a parte do pais, para dar vivas ao Estado Novo. Ricardo Reis, que nunca assistira a um comício politico, não se entusiasmou.

Ouçamos a Susana ler as linhas que descreve o regresso, a pé, de Ricardo Reis até à sua casa no Alto de Santa Catarina.
[…] Ricardo Reis, que esteve todo este tempo ao ar livre, com o céu por cima da cabeça, sente que precisa de respirar, de tomar ar. Desdenha os táxis que aparecem, logo assaltados, e, tendo vindo à festa, mas não fazendo parte da festa, atravessa a avenida para o outro passeio, como se viesse de um lugar diferente, calhou ser esta a rota de passagem, de mais sabemos como são irreprimíveis as coincidências do mundo. A pé, vai atravessar a cidade inteira, não há vestígios da patriótica jornada, estes eléctricos pertencem a outras carreiras, os táxis dormitam nas praças. Do Campo Pequeno ao Alto de Santa Catarina é quase uma légua, para o que lhe havia de dar, a este doutor médico, em geral tão sedentário de hábitos. Chegou a casa com os pés doridos, uma estafa, abriu a janela para arejar a atmosfera abafada do quarto […].

Voltámos à gritaria da rua, agora em direcção ao Terreiro do Paço, última paragem do roteiro. À frente, temos, novamente, o rio Tejo, testemunha do bombardeamento do navio Afonso de Albuquerque. Foi a revolta dos navios, que teve lugar no dia 9 de Setembro de 1936. Morreram doze marinheiros, um deles Daniel Martins, o irmão de Lídia.

Finalmente, Ricardo Reis indigna-se (assim o quis Saramago) com que contempla à sua volta. Não voltará a escrever (se for Saramago a mandar) sábio é o que se contenta com o espectáculo.


Susana lê mais estas linhas, onde se vemos (quem diria) um Ricardo Reis finalmente revoltado:
[…] Durante toda a tarde, Lídia não apareceu. Na hora da distribuição dos vespertinos Ricardo Reis saiu para comprar o jornal. Percorreu rapidamente os títulos da primeira página, procurou a continuação da notícia na página central dupla, outros títulos, ao fundo, em normando, Morreram doze marinheiros, e vinham os nomes, as idades, Daniel Martins, de vinte e três anos, Ricardo Reis ficou parado no meio da rua, com o jornal aberto, no meio de um silêncio absoluto, a cidade parara, ou passava em bicos de pés, com o dedo indicador sobre os lábios fechados, de repente o barulho voltou ensurdecedor, a buzina dum automóvel, o despique de dois cauteleiros, o choro duma criança a quem a mãe puxava as orelhas, Se tomas a fazer outra, deixo-te sem conserto. Lídia não estava à espera nem havia sinal de que tivesse passado. É quase noite. Diz o jornal que os presos foram levados primeiro para o Governo Civil, depois para a Mitra, que os mortos, alguns por identificar, se encontram no necrotério. Lídia andará à procura do irmão, ou está em casa da mãe, chorando ambas o grande e irreparável desgosto […].

A peregrinação está a chegar ao fim. É a hora da morte de Ricardo Reis. Passados nove meses que chegou a Portugal, Ricardo Reis morre em Lisboa.

É tempo de Susana, antes de se despedir, fazer a última leitura:
[…] Então bateram à porta. Ricardo Reis correu, foi abrir, já prontos os braços para recolher a lacrimosa mulher, afinal era Fernando Pessoa, Ah, é você, Esperava outra pessoa, Se sabe o que aconteceu, deve calcular que sim, creio ter-lhe dito um dia que a Lídia tinha um irmão na Marinha, Morreu, Morreu. Estavam no quarto, Fernando Pessoa sentado aos pés da cama, Ricardo Reis numa cadeira. Anoitecera por completo. Meia hora passou assim, ouviram-se as pancadas de um relógio no andar de cima, E estranho, pensou Ricardo Reis, não me lembrava deste relógio, ou esqueci-me dele depois de o ter ouvido pela primeira vez. Fernando Pessoa tinha as mãos sobre o joelho, os dedos entrelaçados, estava de cabeça baixa. Sem se mexer, disse, Vim cá para lhe dizer que não tornaremos a ver-nos, Porquê, O meu tempo chegou ao fim, lembra-se de eu lhe ter dito que só tinha para uns meses, Lembro-me, Pois é isso, acabaram-se. Ricardo Reis subiu o nó da gravata, levantou-se, vestiu o casaco. Foi à mesa-de-cabeceira buscar The god of the labyrinth, meteu-o debaixo do braço, Então vamos, disse, Para onde é que você vai, Vou consigo, Devia ficar aqui, à espera da Lídia, Eu sei que devia, Para a consolar do desgosto de ter ficado sem o irmão, Não lhe posso valer, E esse livro, para que é, Apesar do tempo que tive, não cheguei a acabar de lê-lo, Não irá ter tempo, Terei o tempo todo, Engana-se, a leitura é a primeira virtude que se perde, lembra-se. Ricardo Reis abriu o livro, viu uns sinais incompreensíveis, uns riscos pretos, uma página suja, Já me custa ler, disse, mas mesmo assim vou levá-lo, Para quê, Deixo o mundo aliviado de um enigma. Saíram de casa, Fernando Pessoa ainda observou, Você não trouxe chapéu, Melhor do que eu sabe que não se usa lá. Estavam no passeio do jardim, olhavam as luzes pálidas do rio, a sombra ameaçadora dos montes. Então vamos, disse Fernando Pessoa, Vamos, disse Ricardo Reis […].

E lá foram os dois a caminho do Cemitério dos Prazeres. O ano da morte de Ricardo Reis, segundo José Saramago, aconteceu exactamente no dia 10 de Setembro de 1936. Mais não fosse, ficamos todos aliviados do enigma deixado pelo poeta da Mensagem.