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terça-feira, 24 de março de 2015

Morreu Herberto Helder, poeta singular e difícil


«Só um livro me faz, ao mesmo tempo, invejar, estremecer, rir, chorar e permanecer vivo à espera de mais: “A Morte sem Mestre”, de Herberto Helder […]», escreveu Miguel Esteves Cardoso no jornal "Público" quando da publicação deste livro.


a última bilha de gás durou dois meses e três dias,
com o gás dos últimos dias podia ter-me suicidado,
mas eis que se foram os três dias e estou aqui
e só tenho a dizer que não sei como arranjar dinheiro para outra bilha,
se vendessem o gás a retalho comprava apenas o gás da morte,
e mesmo assim tinha de comprá-lo fiado,
não sei o que vai ser da minha vida,
tão cara, Deus meu, que está a morte,
porque já me não fiam nada onde comprava tudo,
mesmo coisas rápidas,
se eu fosse judeu e se com um pouco de jeito isto por aqui acabasse nazi,
já seria mais fácil,
como diria o outro: a minha vida longa por muito pouco,
uma bilha de gás,
a minha vida quotidiana e a eternidade que já ouvi dizer que a habita e move,
não me queixo de nada no mundo senão do preço das bilhas de gás,
ou então de já mas não venderem fiado
e a pagar um dia a conta toda por junto:
corpo e alma e bilhas de gás na eternidade
- e dizem-me que há tanto gás por esse mundo fora,
países inteiros cheios de gás por baixo!

Poema de Herberto Hélder, o último de “A Morte sem Mestre
Ilustração do escultor Francisco Simões

sábado, 21 de março de 2015

Palavras cruzadas com história - Vergílio Ferreira

"Em Nome da Terra" é o nome do romance do escritor português Vergílio Ferreira, que era pedido com a resolução do problema do passado dia 1 de Março.

O livro conta a história de um juiz internado num lar, onde se confronta com a miséria da sua degradação física (uma perna amputada), a deterioração da sua inteligência. Mas o livro é ainda, do princípio ao fim, uma bela declaração de amor.

E a solução completa do passatempo é esta:


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Recebi respostas de: Aleme, Anjerod, António Amaro, Antoques, Arnaldo Sarmento, Bábita Marçal, Baby, Caba, Corsário, El-Nunes, Elvira Silva, Filomena Alves, Horácio, Jani, João Alberto Bentes, João Carlos Rodrigues, João Rodrigues, Joaquim Pombo, José Bernardo, Mafirevi, Magno, Manuel Amaro, Manuel Caleiro, Manuel Carrancha, Manuel Ramos Pereira, Mister Miguel, Olidino, Osair Kiesling, Paulo Freixinho, Raquel Atalaya, Ricardo Campos, Russo, Salete Saraiva e Virgílio Atalaya.

A todos agradeço com um até breve!

segunda-feira, 16 de março de 2015

D. Sebastião, o rei perdido

Rei D. Sebastião foi um rei triste, um rei perdido.  Reinou entre 1568 e 1578. Dez anos de declínio. Uma triste sombra na História de Portugal.

Quando D. João III morre, é ele que sucede, mas só tem 3 anos de idade.  A regência é assegurada pela avó, D. Catarina, viúva de D. João III, e, depois, pelo tio, o Cardeal D. Henrique. É sagrado Rei quando completa 14 anos de idade. A cerimónia teve lugar no Palácio dos Estaus, no dia 20 de Janeiro de 1568, onde hoje é o Rossio. Conta-se que Pedro Nunes, que também era astrólogo, disse «não, não, neste dia não...estrelas infelizes...reinado curto...vai acabar mal». Acreditando ou não, o célebre matemático teve razão antes de tempo.Foram 10 anos trágicos, de contínua decadência. 

O nosso rei tinha o sonho de conquistar o Norte de África e converter os mouros ao Cristianismo. Rodeou-se de gente que o adulava, mormente jovens, e não deu ouvido às vozes dos mais velhos que não aconselhavam aventuras militares numa altura em que não estava assegurada a sucessão no trono.

Paradoxalmente, Luís de Camões idolatrou-o e dedicou-lhe o livro. Contrariamente a algumas vozes, o Rei não conheceu o poeta. «de vós não conhecido nem sonhado», diz Camões quase no final do poema épico. 

A residência principal do Rei foi o Palácio de Santos, uma antiga colina com o mesmo nome (homenagem a 3 mártires e onde o rei D. Afonso Henriques mandou construir uma pequena ermida). Hoje, o antigo Palácio é o edifício da Embaixada de França, que o tem preservado magnificamente, Tem um jardim com vista para o rio Tejo. Naquela altura, as águas chegavam às muralhas do Paço. No jardim ainda está lá uma mesa que, segundo dizem, foi onde o rei tomou a última refeição antes de embarcar para a viagem de onde não voltaria.

O nosso jovem rei cresceu educado por Jesuítas e tornou-se num adolescente de grande fervor religioso. Conta-se que um dia, numa festa realizada no Palácio de Santos, o jovem rei tocou, sem querer, no seio de uma jovem. O "pobre" rei ficou perturbadíssimo. "Ai, que pecado tão grande! ". Recolheu-se ao oratório e esteve 3 dias, de joelhos, a rezar! Um rei perdido nos seus labririntos!

domingo, 15 de março de 2015

Os medos de António Gedeão


António Gedeão (Rómulo Vasco da Gama de Carvalho) nasceu em Lisboa, em 1906, na Rua Arco do Limoeiro, perto da Sé de Lisboa.

Rómulo de Carvalho derramou o seu enorme talento por várias áreas. Foi um ecléctico da ciência, como ficou demonstrado através das inúmeras e diversificadas actividades, Todavia, todas elas, incluindo a poesia, giraram à volta daquela foi a sua principal actividade: Professor do Ensino Secundário.

Primeiro no Liceu Camões, no ano de 1934. Depois, no Liceu Pedro Nunes, em 1948. Mais tarde, no Liceu D. João III, em Coimbra, em 1959. Finalmente, de volta ao Liceu Pedro Nunes, em 1967, onde se manteve até 1975, ano em que se reformou.

Não obstante todo o talento, Rómulo de Carvalho foi um homem com os seus medos. Já tinha 48 anos quando algo mudou na sua vida. No ano de 1954, o Ateneu Comercial do Porto lançou um concurso de poesia, que Miguel Torga ganhou. Rómulo de Carvalho ficou em 3º lugar. Instado a publicar os versos, escolheu finalmente o pseudónimo António Gedeão. Mas não queria que ninguém soubesse. Ninguém! Nem a própria mulher, que um dia recebeu uma encomenda postal com o formato de livro. E era mesmo o livro do marido!

Quem conta este episódio é a escritora Maria Cristina, filha do poeta, no livro "Rómulo de Carvalho/António-Príncipe Perfeito" (Edição 2012).

Há, porém, um outro episódio que vem relatado no livro e que mostra bem os tais medos do poeta.

Como eu te entendo, meu dilecto poeta! No Liceu Pedro Nunes, antes de se reformar, recebeu o convite para exercer o cargo de reitor do Liceu. Rómulo de Carvalho não aceitou. Como ele próprio disse: «poderia aceitar o convite  para ser empregado da limpeza do liceu, mas para reitor, não. Limparia muito bem o que tinha para limpar porque tudo dependeria de mim». Como eu te entendo!

sábado, 14 de março de 2015

Os pobres de Raul Brandão

Filho de pequenos proprietários, Raul Brandão nasceu no Porto, na Foz do Douro, em 1867. Ano fértil em escritores. No mesmo ano, nasceram outros dois grandes vultos da Língua Portuguesa: António Nobre e Camilo Pessanha. Raul Brandão morreu em Lisboa em 1930. 

Na Foz do Douro passou a sua adolescência e mocidade. Esta circunstância irá marcá-lo para sempre com a dupla presença do Mar e desses homens de um quotidiano humilde e trágico a que ainda estava ligado por laços familiares (filho e neto de homens do mar): «Meu avô materno partiu um dia no seu lugre; minha avó Margarida esperou-o desde os vinte anos até à morte, desde os cabelos loiros que lhe chegavam aos pés, até aos cabelos brancos com que foi para o túmulo.», escreveu ele em “Os Pescadores”. O oceano e os homens do mar foram um tema recorrente da sua obra. 

A infância é evocada principalmente no livro “Memórias”, uma infância de que terá sempre saudade e donde emergem figuras como a do pai que morreu «amachucado, exausto e pobre» e da mãe «que se gastou a sonhar, só nervos e paixão».

Teve uma passagem pouco feliz pelo Colégio de S. Carlos, no Porto. No colégio entra em contacto com o «mundo atroz e brutal» da realidade. Talvez a partir daqui se possa começar a vislumbrar a dualidade entre o mundo claro e luminoso de “Os Pescadores” e as visões de pesadelo do mundo denso, sombrio, trágico e grotesco de obras como “Húmus”, “Os Pobres”, “A Farsa”…

Terminado o liceu, matriculou-se no Curso Superior de Letras e entrou em contacto com a juventude nortenha de ambiçães literárias, da qual faziam parte alguns amigos da sua adolescência, como António Nobre e Justino de Montalvão. Criou-se, então, o grupo iconoclasta que a si mesmo se denominou de «Os Insubmissos», tendo surgido uma revista, com este mesmo título, em 1889, quase em simultâneo com a revista “Boémia Nova”.

Em 1890, Raul Brandão fez a sua estreia literária com uma colectânea de contos naturalistas, intitulada ”Impressões e Paisagens”, onde relata cenas patéticas da vida dos marinheiros. Por essa altura, participou entusiastacamente em todos os movimentos de renovação literária, dirigindo com Júlio Brandão (não existe parentesco algum entre eles) e D. João de Castro a “Revista de Hoje”. Iniciou também, nesta altura, a sua actividade de jornalista no “Correio da Manhã”, que se prolongará por muitos anos. 

Em 1891, com 24 anos, Raul Brandão, o “literato insubmisso” matriculou-se na Escola do Exército, para seguir a carreira militar. Ele adorava a mãe, o que fez com que ele seguisse a carreira militar. Como disse Aquilino Ribeiro, a mãe «gostava de ver o seu menino fardado». Depois de dez meses de estágio na Escola Pratica de Infantaria de Mafra, foi promovido a alferes e colocado em Guimarães, onde conhece Maria Angelina, com quem casará. 

Mais tarde, foi transferido para Lisboa, e é então que surge o jovem escritor nefelibata preocupado com temas como Deus, a morte, o sentido da vida. Colaborou na composição do folheto “Nefelibatas”, em 1893, e aproveitou os escritos do “Correio da Manhã” para publicar em 1896 um livro “História de Um Palhaço”, obra que virá a ser refundida em 1926 e que passará a intitular-se “A Morte do Palhaço e o Mistério da Árvore”.

Em 1897, Raul Brandão casou-se com Maria Angelina. Um amor feliz, uma esposa que ele adorava. Nos últimos anos, ele ditava e ela escrevia. Viveu durante um ano em Guimarães, pedindo para ser transferido para o Porto, passando a viver na Foz do Douro. É nesta altura que escreve, em parceria com Júlio Brandão, a peça “Noite de Natal”, representada no Teatro D. Maria, em 1899.

Em 1901, Raul Brandão pediu de novo transferência para Lisboa. Dedicou-se ao jornalismo e entrou em contacto com os anarquistas. Um deles ter-lhe-á dito «se quer ser um escritor, fale dos pobres». Frase que ele parece nunca mais ter esquecido para o resto da sua vida.

Em 1903, Raul Brandão adquiriu a célebre Casa do Alto, perto de Guimarães. A sua vida irá repartir-se entre o recolhimento campestre desta casa com a produção jornalista e literária. 

Por volta de 1910, antes da implantação da República, sofre uma forte crìse de depressão nervosa, confessando mais tarde em “Memórias”, vol. I, de 1919: «Hoje acordei com este grito: eu não soube fazer uso da vida!» Começa a interessar-se pela História de Portugal e escreveu “El-Rei Junot” (1912) e “A Conspiração de Gomes Freire” (1914), onde podemos encontrar uma concepção trágica da História.

Porém, ele não gostava nada, mesmo nada, de ser militar. Foi alferes, tenente, capitão. Na tropa é “só fazer o servicinho”, escreveu ele. Ainda, nas suas próprias palavras: “no tempo em que fui tropa vivi sempre enrascado”. Apesar disso, foi-lhe possível manter, em paralelo, uma carreira de jornalista ( escrevia para o jornal “Correio da Manhã”), e publicar um extensa obra literária. Encontra-se colaboração da sua autoria no semanário "O Micróbio" (1894-1895) e nas revistas Brasil-Portugal (1899-1914) e Serões. 

Finalmente, em 1911, Raul Brandão reforma-se do exército, no posto de major.

Em 1917, publica aquele que é na opinião de muitos a sua mais bela obra - o romance "Húmus", um “romance moderno”, no dizer de José Régio.

A partir desta altura deixa de passar os invernos na Casa do Alto, começando a passá-los em Lisboa, convivendo com outros intelectuais. Com um grupo de inconformistas, Jaime Cortesão, Raul Proença, Aquilino Ribeiro e outros funda, em 1921, a revista “Seara Nova”.

É também por altura que se dedica ao seu velho sonho: o teatro.

Em 1923 publica “Teatro”, livro que contém “O Gebo e a Sombra”, “O Doido e a Morte” e “O Rei Imaginário”. A primeira foi representada em 1927 no Teatro Nacional e passou despercebida. “O Doido e a Morte” foi representada em 1926 no Teatro Politeama. 

O Gebo e a Sombra” foi recentemente adaptada ao cinema por Manoel de Oliveira, o que prova que se pode falar de uma forma contemporânea de um autor intemporal, injustamente esquecido.

Ern 1927 publica “Jesus Cristo em Lisboa", de colaboração com Teixeira de Pascoaes, escritor com quem Raul Brandão conviveu de perto (vide pp 405 de "A pedra ainda espera dar flor”).

Raul Brandão tinha em mente quatro livros de teatro, mas só um veio a ser publicado, tal como planeara escrever A História Humilde do Povo Português, como poderemos ler nas Memórias. “Os Pescadores” seria o primeiro volume dessa História, a que se seguiriam “Os Lavradores”, “Os Pastores” e “Os Operários”. Ligada a este plano deveria estar, por certo, a viagem aos Açores e à Madeira, em 1924, viagem que está na origem de “Ilhas Desconhecidas”, livro de 1926.

Escreveu ainda com a sua mulher, Maria Angelina, uma narrativa para crianças, “Portugal Pequenino”, editado em 1930, ano da sua morte, e dita um livro, publicado um ano depois, livro atormentado e quase autobiográfico, “O Pobre de Pedir”.

Olhando para a biografia de Raul Brandão parece poder afirmar-se que é uma personalidade contraditória: Para uma vida simples, uma obra literária complexa e densa. Foi um homem de imaginação febril, mas passivo. Como artista, foi um caso isolado, muitas vezes incompreendido no seu meio. 

Em “Balanço à Vida”, prefácio do terceiro volume de “Memórias”, espécie de autobiografia, Raul Brandão confessa justamente a contradição entre o pensar e o agir que toda a vida o atormentou: «Eu nunca pude pôr de acordo as minhas ideias com as minhas acções. Se pudesse, já há muito que estava na cadeia

quarta-feira, 11 de março de 2015

O poeta Barbosa du Bocage e o seu primo

Anos a fio, percorri da rua Barbosa du Bocage, em Lisboa, curvando-me à memória do grande poeta, do Elmano Sadino.

Foram 16 anos, a caminho do meu emprego, uma vez de manhã, outra à tarde. A rua é uma perpendicular à Av. da República e o troço que percorria, inviavelmente, todos os dias, era, exactamente, aquele que se situa entre a Av. Defensores de Chaves e a Rua Arco Cego. 

Hoje, passei lá novamente, e olhei, com mais atenção, para a placa toponímica que anuncia o nome da rua. Espantado, li Barbosa du Bocage (1823-1907), Zoólogo e Político.  

Li bem? Então, não é o poeta, “Já Bocage não sou!... À cova escura / Meu estro vai parar desfeito em vento...” ?. Não, este Barbosa du Bocage, o da rua que me é tão familiar, não é o nosso grande e admirado poeta. Santa ignorância!

Afinal, este senhor, o da rua Barbosa du Bocage, chama-se José Vicente Barbosa du Bocage (1823-1907), Foi um zoólogo e politico português. Foi curador do Museu de história Natural de Lisboa. Publicou extensa obra sobre mamíferos, aves e peixes. Na década de 1880 foi Ministro da Marinha e, mais tarde, Ministro dos Negócios Estrangeiros. Em 1905, por decreto governamental, a secção de zoologia do Museu Nacional de Lisboa foi nomeada como “Museu José Vicente Barbosa du Bocage” em sua honra. Mas, que se saiba, este não poetava.

Ah, já me esquecia de dizer. José Vicente Barbosa du Bocage era primo em segundo grau do poeta Manuel Maria Barbosa du Bocage. Vá lá, nem tudo se perdeu! 

sexta-feira, 6 de março de 2015

Ruy Belo & Nuno Júdice - Diálogos Poéticos


"Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros", escreveu o poeta Ruy Belo, neste belo poema:

Algumas Proposições com Pássaros e Árvores

Os pássaros nascem na ponta das árvores 
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros 
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores 
Os pássaros começam onde as árvores acabam 
Os pássaros fazem cantar as árvores 
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se 
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal 
Como pássaros poisam as folhas na terra 
quando o outono desce veladamente sobre os campos 
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores 
mas deixo essa forma de dizer ao romancista 
é complicada e não se dá bem na poesia 
não foi ainda isolada da filosofia 
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros 
Quem é que lá os pendura nos ramos? 
De quem é a mão a inúmera mão? 
Eu passo e muda-se-me o coração

Ruy Belo

A proximidade entre pássaros e árvores é tão grande que o poeta acaba por ver os pássaros como prolongamentos das árvores. E vendo os pássaros como as pessoas e as árvores como o amor, a interpretação parece ser semelhante: as pessoas nascem do amor. Muito bom!


Anos mais tarde, o poeta Nuno Júdice homenageia o seu confrade, escrevendo este poema, igualmente bonito:

Variações com Pássaros
E Versos de Ruy Belo


Eu queria olhar os pássaros
pelas proposições de ruy belo: vê-los
nos galhos das árvores, como frutos
De verão. E queria colhê-los,
como se cada asa fosse um verso,
para fazer este poema voar
“ com uma referência ao coração”.

Assim, poderia contar as pulsações
do poema como quem conta as sílabas;
e ver as palavras juntarem-se
como os pássaros do outono, varejando
com a “inúmera mão” do poeta
natureza e filosofia, folhas
e aves caindo da sua música.

E estenderia os olhos dos pássaros
nesta folha, abertos como a alma das árvores
no outono, para lhes roubar o amor
que os pássaros levam para lá do horizonte
para onde as nuvens os empurram. Contá-los-ia
pelos dedos de ruy belo, nessa forma
complicada que “não se dá bem na poesia”.

Depois, devolvo aos pássaros  os seus
olhos, e ao poeta os seus versos; mas guardo
o amor que sobrou sob os ramos das árvores
de onde os pássaros partiram, deixando vazio
o lugar em que os amantes se encontram,
vendo “que pássaros emanam das árvores”
quando o seu silêncio enche o campo.

E nestes pássaros de ruy belo também
“ eu passo e muda-se-me o coração”.

Nuno Júdice, in Geometria Variável

quarta-feira, 4 de março de 2015

Todos para a cadeia?

Este texto, do escritor Valter Hugo Mãe, já tem mais de um ano, mas merece ser lembrado.

Vergílio Ferreira precisava de ser ressuscitado. Mesmo que muitos me digam que ele nem era simpático, andava de cara fechada, reagia pouco bem aos leitores, era severo, um daqueles cidadãos de antigamente cheios de infernos para se culpar e culpar os outros. O Vergílio Ferreira, ainda que difícil de aturar, precisava de ficar vivo e escrever sempre mais para traduzir o intraduzível de que tantas vezes dependemos. Essas máquinas todas sofisticadas que o mundo já tem são muito tolas se não servem para eternizar a vida de alguém. E não me venham dizer que os escritores são eternos, porque os livros do Vergílio Ferreira nunca estiveram tão bonitos [Quetzal] e não me parece que muita gente lhes esteja a pegar. Deve andar tudo maluco. Também urge ir pelas ruas mandar para a cadeia todos quantos não leem Vergílio Ferreira. 

Sou a favor de cadeias para crimes de desperdício de maravilha. Quem tem acesso à maravilha e a despreza não pode reclamar da falta de amores, da falta de felicidade.

Volto sempre ao Manhã Submersa. Passei um tempo em estadias breves num seminário de Famalicão, nunca fui forçado a nada, mas tive muito da tentação inexplicável de me sacrificar, abdicar de mim para cumprir uma função exclusivamente dedicada aos outros. Não era uma ideia burra, era apenas uma ideia exagerada. Achava que estar vivo efetivamente me obrigava, e achava que podei pensar e sentir acerca da miséria alheia me condenava à necessidade de intervir. Não poderia ser outra coisa senão um missionário.

Ainda vivi naquele Portugal de casas frias, as poucas cores, os adultos tristes, cansados, pobres, a esperança inteira e tão mal fundada na graça divina. Lembro-me bem da beatitude em meu redor, a senhoria tão religiosa, as tias, a família muito grande, a minha ingenuidade. Eu era um rapaz perfeito para a virtude. Tantas vezes me disseram que haveria de crescer para padre, com a fé toda e a vida resolvida de trabalho, teto e comida. Tinha um medo profundo do que pudesse ser o futuro. Sentia que crescer era ir ao contrário da vontade ou das coisas naturais.

Hoje estive a rever o filme do Lauro António e poucos filmes me fascinam e magoam tanto quanto este. A sua plasticidade austera, o severo das personagens, a música desoladora e bela, tudo me impressiona. Compadeço-me com ver o rapaz, sempre a honra da família nas mãos, completamente encurralado pela candura, esforçando-se para aceitar um destino avesso.

Lembro- me de ler pela primeira vez o livro do Vergílio Ferreira e de tentar não dar um rosto ao miúdo, nem que fosse o meu. Tinha-Ihe muita compaixão e sentia-me intimidado. De algum modo, não arranjava coragem para o conhecer ou nunca teria coragem para pensar que poderia ser eu. Compreendia tão bem porque cada coisa lhe acontecia, eram-me tão inteligíveis as suas razões e a sua tristeza que não podia chegar demasiado perto, para não tomar a ficção por realidade.

O Lauro António deu um rosto ao miúdo e podia ser que me salvasse definitivamente de me confundir com ele. Mas há qualquer coisa na maneira como a memória fica que se vai apoderando das diferenças e dizendo que elas são apenas aparentes. Com a idade, sobretudo no que diz respeito à infância, as coisas revelam -se- nos e quase. sempre correspondem às nossas mais estranhas e inconfessáveis ideias. Eu sei que parte de mim deveria andar missionária em África. Isso nunca ninguém me apagará da consciência. Por outro lado, o ser um bocado lingrinhas e dado a dores de cabeça e todo ocupado com livros e histórias não promete muito um missionário. Provavelmente, ao fim de um mês, estaria com os paludismos todos e o calor demasiado esmaga-me o cérebro, e ia faltar-me a mordomia das casas que temos, o café, a roupa da Zara, a estreia de outro filme, os livros.

O que queria dizer era que o Lauro António também devia ser acusado de crime contra o desperdício da maravilha. Isto porque ficou grandemente pelo Manhã Submersa e O Vestido Cor de Fogo. Um homem que faz destes filmes não pode esquecer-se. Havia de haver escolas verdadeiras. Daquelas públicas que pudessem continuar a ser públicas, para toda a gente, integradoras, generosas, onde se ensinassem as pessoas exatamente para a maravilha. E, depois, havia toda a gente se pôr a ler o livro e a ver o filme. A tirar notas, fazer testes sobre isso como quem gosta de fazer testes, porque estudar ia ser perfeito. Era fundamental que pensássemos acerca daquela realidade e que pensássemos acerca de como um livro e um filme podem ser tão intensos e guardar dentro partes de gente como para sempre vivas, vigentes, com sentido.

O Vergílio Ferreira não estou a ver quem ressuscite. Resta ler. O Lauro António, desnecessitado de ressurreições, há que consciencializar-se das suas obrigações. Que isto de filmar como filma não lhe dá o direito de recusar-se a voltar ao grande cinema. Depois de Ferreira e Sena, José Cardoso Pires ou Urbano Tavares Rodrigues ficariam muito lindos.

Valter Hugo Mãe, in “Jornal de Letras”, 4 de Setembro de 2013